terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

A Doença

“O próximo slide, por favor… Ah! Este é um caso interessantíssimo. O comportamento deste grupo de indivíduos prima pela expensão de vastas quantidades de energia na circulação em caminhos montanhosos e irregulares, com total desrespeito pelas mais adversas condições climatéricas. Para tal efeito são utilizados primitivos veículos de duas rodas inerentemente instáveis, movidos pelo esforço físico do operador. Não fosse tal facto constituinte só por si de prova conclusiva de afectação psiquiátrica, notem ainda que os sujeitos em estudo nutrem uma profunda fixação por um tipo singular de actividade anómala que denominam de ma-ra-to-na.

Este é certamente o ponto mais interessante de toda esta patologia desviante: nas suas montadas mecânicas os sujeitos cobrem uma distância perturbadoramente grande – uma centena de quilómetros parece ser a norma – juntamente com inúmeros outros indivíduos, numa cerimónia extremamente elaborada. Estas actividades extenuantes ocorrem com alarmante regularidade ao longo do ano, e os participantes chegam a realizar verdadeiros actos de malabarismo aos níveis profissional e familiar para se poderem deslocar às ditas actividades. O campismo e a alimentação rudimentares de que se socorrem encontram-se, em muitos casos, bem abaixo dos níveis mínimos de conforto exigidos por qualquer indivíduo são.

As assim-chamadas maratonas possuem uma marcada faceta competitiva, sendo aparentemente importantes para estabelecer uma hierarquia dentro do grupo. Um estudo mais atento revelará, no entanto, que o comportamento competitivo e agressivo demonstrado é meramente simbólico, chegando a roçar o festivo. A razão que leva grandes números de participantes a exercerem tão prolongado e doloroso esforço físico numa competição que a generalidade reconhece à partida não ter a mínima hipótese de ganhar, continua a iludir-me. É um mistério insondável, meus senhores. Sintomas visíveis da enfermidade em causa incluem treinos físicos prolongados e frequentes, preocupação obsessiva com o peso do velocípede e membros inferiores desprovidos de pelagem, todos pontos essenciais na adoração deste fetiche aeróbio.

Mais notável ainda é o aspecto comunitário desta condição anómala. Os sujeitos em questão encontram-se profundamente enraizados numa comunidade, numa rede de milhares de indivíduos por idêntica demência que interagem entre si a longas distancias dando azo a uma alimentação deste desvio mental colectivo: é criado um efeito de incentivo mutuo entre membros da comunidade que os leva a treinar mais e a participar mais. Em suma, o monstro alimenta-se a si próprio.

De momento não se conhece cura ou tratamento para esta desordem psiquiátrica. Os pacientes sofrerão da condição descrita para o resto das suas vidas, temo bem. Completamente incuráveis. Próximo slide, por favor.”

by Boinga

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